Aaron T. Beck

 

A Terapia cognitiva foi desenvolvida por Aaron T. Beck no início da década de 60 na Universidade da Pensilvânia nos EUA como uma psicoterapia breve, estruturada, orientada ao presente, direcionada a resolver problemas atuais e a modificar os pensamentos e os comportamentos disfuncionais (Beck, 1964).

Em resumo o modelo cognitivo propõe que o pensamento disfuncional (pensamentos dissonantes com a realidade e que causam prejuízos à saúde mental e emocional do sujeito) seja comum aos distúrbios psicológicos, e assim influencia as emoções, humor e comportamento do indivíduo, sendo assim esses fatores podem ser melhorados a partir de uma avaliação realista para a modificação desses pensamentos disfuncionais/distorcidos.

A terapia cognitiva vem sendo desenvolvida e refinada ao longo dos anos e está devidamente apoiada por evidências empíricas substanciais contanto com diversos artigos científicos já publicados demonstrando sua eficácia no tratamento de diversos transtornos como: transtorno depressivo maior, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico, fobia social, abuso de substância, transtornos alimentares, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático dentre outros. Frequentemente ela também tem sido útil em combinação com medicamentos para o tratamento de transtorno afetivo bipolar e esquizofrenia.

Você deve estar se perguntando, mas como pode haver tantas aplicações com terapia cognitiva? Bom, todos os tratamentos derivados do modelo Beck são baseados em uma formulação cognitiva de um transtorno específico, e apesar dos princípios básicos serem os mesmos a conceituação, entendimento e aplicação é moldada ao paciente individualmente, de acordo com o modelo cognitivo.

 

O modelo cognitivo

A TCC baseia-se no modelo cognitivo, que levanta a hipótese de que as emoções e comportamentos das pessoas são influenciados por sua percepção dos eventos. Não é uma situação por si só que determina o que as pessoas sentem, mas, antes, o modo como elas interpretam uma situação (Beck, 1964; Ellis, 1962).

Eis aqui uma adaptação de um exemplo dado por Judith Beck no livro Terapia Cognitiva, teoria e prática de uma situação onde várias pessoas estão lendo um texto básico introdutório sobre determinada profissão de interesse.

O leitor A pensa: “Ei, isso realmente faz sentido. Finalmente, um livro que realmente vai ensinar-me a ser um bom profissional.O leitor A se sente moderadamente entusiasmado.

• O leitor B, por outro lado, pensa: “Essa coisa é muito simplista. Isso nunca funcionará”, e se sente decepcionado.

• O leitor C tem os seguintes pensamentos: “Este livro não é o que eu esperava. Que desperdício de dinheiro.O leitor C está aborrecido.

• O leitor D pensa: “Eu realmente preciso aprender tudo isso. E se eu não entender? E se eu nunca ficar bom nisso?”, e se sente ansioso.

• O leitor E tem pensamentos diferentes: “Isso é simplesmente difícil demais. Eu sou tão burro! Eu jamais dominarei isso. Eu jamais conseguirei ser um bom profissional.” O leitor E se sente triste.

Então, de acordo com  Beck, o modo como as pessoas se sentem está associado ao modo como elas interpretam e pensam sobre uma situação. A situação em si não determina diretamente como eles sentem; sua resposta emocional é intermediada por sua percepção da situação.

 

Como as crenças surgem?

São surgidas desde a infância, onde o sujeito desenvolve crenças sobre si, outras pessoas e seus mundos. As crenças mais centrais são frequentemente desconhecidas pelo próprio sujeito, pois não são articuladas.

Essas idéias são consideradas pela pessoa como verdades absolutas, exatamente o modo como as coisas “são”. Por exemplo, o leitor E, que pensava ser burro demais para dominar o texto, poderia ter a crença central “Eu sou incompetente”. Essa crença pode operar apenas quando ele está em um estado deprimido ou pode estar ativada grande parte do tempo. Quando a crença central está ativada, o leitor E interpreta as situações através da lente dessa crença, embora a interpretação possa, em uma base racional, ser patentemente uma inverdade. O leitor E, no entanto, tende a focalizar seletivamente informações que confirmam a crença central, desconsiderando ou descontando informações que são contrárias. Desse modo, ele mantém a crença mesmo que ela seja imprecisa e disfuncional.

Por exemplo, o leitor E não considerou que outras pessoas competentes e inteligentes poderiam não entender completamente o material em uma primeira leitura. Nem ele considerou a possibilidade de que o autor não apresentou bem o material. Ele não reconheceu que sua dificuldade de compreensão poderia ser devido a uma falta de concentração em vez de a uma falta de potência cerebral. Ele esqueceu que muitas vezes, no início, tinha dificuldades quando lhe era apresentado um conjunto de informações novas, mas posteriormente teve um excelente histórico de domínio. Porque sua crença de incompetência estava ativada, ele automaticamente interpretava a situação de uma forma autocrítica altamente negativa.

Este emaranhado de crenças ocorre pois as pessoas tentam extrair sentido do seu ambiente desde os seus primeiros estágios desenvolvimentais. Elas precisam organizar a sua experiência de uma forma coerente para funcionar de forma adaptativa (Rosen, 1988). Suas interações com o mundo e com outras pessoas conduzem a determinados entendimentos ou aprendizagens, suas crenças, as quais podem variar em precisão e funcionalidade.

De acordo com a TCC podemos descrever o modus operandi do funcionamento dos nossos pensamentos em três âmbitos principais:

Crenças Centrais: São consideradas de mais difícil acesso, são mais profundas, rígidas, globais e supergeneralizadas. São as crenças nucleares que vão desencadear a maneira de pensar, sentir e agir do sujeito.

Crenças intermediárias (regras, atitudes, suposições): As crenças intermediárias são baseadas nas crenças nucleares e consistem em atitudes, regras e suposições (frequentemente não articuladas). Elas interferem diretamente no modo como o sujeito enxerga uma situação, e assim influencia como ele pensa, sente e se comporta.

Pensamentos automáticos: São  considerados os níveis mais superficiais da cognição e de mais fácil acesso. Pensamentos automáticos, se tratam de imagens reais ou palavras que passam pela cabeça do sujeito e são específicos à situação, geralmente são rápidos e automáticos.

 

Formulação cognitiva

 

Atuação do terapeuta na prática

O terapeuta busca produzir a mudança cognitiva, mudanças no pensamento e no sistema de crenças do paciente, visando promover mudança emocional e comportamental duradoura,ou seja, ensinar o sujeito a emitir respostas mais funcionais e mais embasadas na realidade, isso utilizando de suas habilidades de conceituação, técnicas terapêuticas, planejamento do tratamento mais efetivo e habilidade de resolução das dificuldades surgidas em terapia; o conceito pode até parecer simples, mas a prática é extremamente complexa e depende de muito trabalho e dedicação por parte do terapeuta e também do paciente pois a TCC é educativa, visa ensinar o paciente a identificar por si próprio situações onde ele apresenta respostas disfuncionais para que a longo prazo ele possa vir a ser seu próprio terapeuta, com isso há também a prevenção de recaídas.

Nota:

Este artigo foi construído através de apanhados do excelente livro Terapia cognitiva: teoria e prática de Judith Beck. Fica aqui minha singela homenagem ao Pai da Terapia Cognitiva que ainda hoje no auge dos seus 97 anos permanece trabalhando para lapidação e solidificação científica da abordagem, juntamente com sua filha. ♥

Informação adicional:

Apesar do foco deste artigo ser a terapia cognitivo-comportamental desenvolvida por Aaron Beck que foi o precursor da abordagem, é importante citar que diversas formas de terapia cognitivo-comportamental foram desenvolvidas por outros teóricos importantes, notadamente a terapia racional-emotiva de Albert Ellis (Ellis, 1962), a modificação cognitivo-comportamental de Donald Meichenbaum (Meichenbaum, 1977) e a terapia multimodal de Arnold Lazarus (Lazarus, 1976). Contribuições importantes foram feitas por muitos outros, inclu indo Michael Mahoney (1991), Vittorio Guidano e Giovanni Liotti (1983). Pano ramas históricos da área fornecem uma rica descrição de como as diferentes cor rentes da terapia cognitiva se originaram e cresceram (Arnkoff & Glass, 1992; Hollon & Beck, 1993).

 

Referências

BECK, Judith S; ROSA, Sandra Maria Mallmann. Terapia Cognitiva-Comportamental: Teoria e Prática. 2. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2013. 413 p.

 

 

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Nayara Sena

Graduanda em psicologia, amo dividir conhecimento e aprender coisas novas sobre diversos assuntos, me considero uma entusiasta moderada de tecnologia, porém minha paixão maior é e sempre será a psicologia.

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